Por Wilbur F. Tillett


Devemos considerar a dignidade e a superioridade da natureza do homem, conforme isso é dado em sua posse do livre-arbítrio. A liberdade consiste no poder de autodeterminação da vontade. A vontade humana não pode ser compelida à ação por qualquer poder fora de si mesma sem destruir, no que diz respeito a esse ato, sua verdadeira liberdade. Não importa se o poder que compele a vontade atua sobre ela de fora ou de dentro; o resultado é o mesmo: ela não pode ser livre.

Não importa se este poder seja a vontade Divina ou outra vontade humana, ou uma influência satânica; se ele compele a vontade, a liberdade é destruída. Alguns definiram a liberdade como “fazer o que quer que se queira fazer” e disseram que, como Deus pode trabalhar de dentro sobre a vontade e torná-la disposta, a pessoa estará agindo livremente ao seguir suas volições divinamente compelidas, porque ela está “fazendo o que quer fazer”.

Desta forma, faz-se um esforço para reconciliar a necessidade e a liberdade humana. Mas isto seria o tipo mais absoluto de escravidão, e só poderia ser chamado de servidão da vontade, não propriamente de liberdade da vontade. Uma pessoa sob influência mesmérica ou hipnótica está “fazendo o que ela quer fazer”, mas sua escravidão à vontade mais poderosa é quase absoluta. Não dizemos que não possa existir algo como uma volição divinamente necessitada ou uma decisão da vontade causada divinamente, mas afirmamos que tais volições produzidas divinamente não podem ser volições livres.

Influência dos Motivos no Livre-Arbítrio

O homem age em vista de motivos. Tudo o que apela a uma personalidade livre e atua como uma influência sobre a vontade é um motivo; mas os motivos não necessitam a vontade. Não há poder causativo nos motivos. Eles podem atuar apenas como influências. Dizer que um homem deve seguir o que para ele é o motivo mais forte e, então, definir o motivo mais forte como aquele que o homem segue, é raciocinar em círculo. É o homem que determina o motivo, em vez de o motivo determinar o homem.

Naturalmente, a influência de qualquer motivo dado sobre um homem depende de seu caráter, que é, ao mesmo tempo, um resultado da liberdade passada e um fator importante na determinação do exercício de sua livre agência em todos os atos presentes e futuros. Mas enquanto o caráter estiver em seu estado formativo, livre e probatório, a influência do motivo no livre-arbítrio não é certa e fixa, mas contingente; e o mesmo agente livre, sob identicamente as mesmas circunstâncias e os mesmos motivos, pode escolher fazer uma coisa um dia e uma coisa diferente em outro dia.

Se puder ser demonstrado que as condições existentes atuaram sobre a vontade de modo a necessitar uma determinada volição, então fica demonstrado que o indivíduo não foi livre e responsável naquele ato. A habilidade sempre limita a obrigação, a menos que a inabilidade seja autoinduzida. Um agente livre que, por um pecado anterior, tornou-se incapaz de resistir à tentação (um bêbado inveterado, por exemplo), ainda assim é responsável porque sua inabilidade é autoinduzida.

Livre Escolha, a Essência do Livre-Arbítrio

Ouvimos freqüentemente dizer que “a vontade manifesta suas volições livremente”. Isso implica que o homem pode manifestar volições ou não, conforme escolher? Pensamos ser mais preciso dizer que a vontade humana manifesta uma volição necessariamente, no sentido de que não pode fazer de outra forma; mas ela manifesta esta em vez de aquela volição livremente. A vontade está obrigada a agir de alguma forma e a manifestar algumas volições; mas não está sob a necessidade de manifestar uma volição particular, e nenhuma outra.

Mesmo a não ação absoluta, não fazer nada, é, no que diz respeito à vontade, uma volição e um ato, e um pelo qual o homem é tão responsável quanto é por uma volição positiva que resulta em fazer algo. Pode haver pecados de omissão tanto quanto pecados de ação; pecados de omissão, que são tão culpáveis quanto pecados de comissão.

A verdadeira liberdade da vontade, portanto, consiste não em seu poder de manifestar uma volição ou não — pois para agir a vontade deve, de alguma forma, manifestar-se — mas sim em escolher qual, dentre uma série de possíveis volições e atos, será tornada real. Tudo isso constitui o que podemos chamar de liberdade natural ou metafísica.

Agência Moral

Quando a vontade do homem é direcionada para a decisão de questões de certo e errado que têm influência sobre a conduta moral, o caráter e o destino, isso é chamado de livre agência moral. Quando dizemos, portanto, que o homem é um agente moral livre, queremos dizer que em todos os assuntos de certo e errado sua vontade age livremente e não é determinada ou compelida a uma determinada ação por nada fora de si mesma; que, embora Deus, Satanás, outros seres humanos, circunstâncias externas e motivos variados possam apelar a ele como influências, nenhum deles pode compelir sua vontade a uma determinada volição.

Deus, em certo sentido, limitou a si mesmo quando criou o livre-arbítrio. Pois, embora Deus possa, como uma mera questão de poder, fazer com que a vontade criada manifeste qualquer volição que Ele escolha, Ele só pode fazê-lo destruindo a liberdade dela naquela volição específica. Ele não pode fazer com que uma volição seja livre e compelida ao mesmo tempo. Se isto for verdade, é impossível reconciliar com a livre agência humana qualquer predestinação divina na eternidade que necessite todas as volições e atos dos homens. O pré-conhecimento divino e a livre agência humana são inteiramente reconciliáveis entre si, mas a predestinação incondicional e a livre agência não podem ser reconciliadas. E, no entanto, pode haver algumas volições produzidas divinamente em seres livres.

Volições Divinamente Produzidas em Seres Livres são Possíveis

A orientação divina e a providência especial de Deus podem envolver volições divinamente produzidas, aqui e ali, assim como um pai terreno, embora permita que seu filho geralmente aja livremente, pode, no entanto, aqui e ali, intervir com sua inteligência superior e força de vontade, e ele próprio determinar e assegurar causativamente um determinado ato; mas ele não chama este último ato de livre, nem o considera, de fato, como um ato de seu filho, exceto em um sentido secundário.

Da mesma forma, volições humanas livres e volições divinamente produzidas podem ambas se encontrar em perfeita harmonia na mesma vida. Mas, se existem tais volições divinamente produzidas, elas não podem ser chamadas de livres. Tampouco pode uma volição compelida ser uma volição moral, pela simples razão de que não é livre e, portanto, não pode ser virtuosa ou viciosa.

O Predestinacionismo tem sido ensinado de tal forma que exclui a possibilidade da livre agência moral, tal como a consciência humana e a Bíblia ensinam; e a doutrina da livre agência, por outro lado, tem sido ensinada de modo que pareceu a alguns excluir a possibilidade de qualquer intervenção real da Vontade Divina na vida humana que seja necessária para explicar a doutrina da orientação divina e da providência especial de Deus em, bem como sobre, Suas criaturas.

Se Deus pudesse determinar e compelir todas as volições de Suas criaturas, e elas permanecessem livres ao mesmo tempo, então Ele certamente asseguraria a santidade e a salvação de todos os homens; Sua própria natureza é o… …garantia disso. Mas o fato de alguns agentes livres pecarem é a prova de que Deus não pode controlar suas vontades sem destruir sua liberdade. Não é uma limitação de poder, nem mesmo para o Deus onipotente, dizer que Ele não pode fazer uma coisa impossível ou operar uma contradição de pensamento; e assegurar pelo poder divino uma determinada série de volições e atos que devam ser, ao mesmo tempo, realmente livres, é uma contradição de pensamento e, portanto, uma impossibilidade de execução.

Em seres livres, a santidade compelida e a culpa compelida são igualmente impossíveis; ou, se existissem tais coisas, elas não poderiam ter um caráter moral e ser virtuosas ou viciosas. Se existisse algo como santidade moral compelida e culpa moral compelida, seria a virtude ou o vício não das criaturas que possuem essas qualidades morais, mas do ser pessoal que causou e compeliu essas qualidades.

Um agente livre cujas volições e atos devessem ser determinados e causados por outra vontade deixaria de ser um agente livre; de fato, deixaria de ser um agente em qualquer sentido verdadeiro; seria simplesmente uma pessoa sobre a qual se atua, uma máquina humana. Atribuir santidade (ou culpa) a tal pessoa seria um termo impróprio, uma ficção moral; pelo menos deveria ser chamada de santidade criada ou compelida para distinguí-la do que geralmente queremos dizer com esse termo — a saber, a virtude moral que pertence a um ser livre, e que é o resultado de um período de provação sob condições onde o pecado é possível.

A santidade compelida, se fosse possível, não poderia ser meritória nem recompensável; e a culpa compelida, se fosse possível, não poderia ser desmeritória nem justamente punível. Se definirmos santidade como aquele atributo de um ser livre sob provação que resulta de volições corretas e atos virtuosos, e culpa como aquele atributo que resulta, sob provação, de volições erradas e atos pecaminosos, temos uma definição que é ao mesmo tempo clara e autoconsistente, e é a única definição que pode se harmonizar com a doutrina da livre agência moral. Seria então a santidade compelida impossível no universo de Deus?

Distinção entre Santidade Compelida e Probatória

Talvez não devêssemos afirmar que não pode haver tal coisa como santidade compelida; ou se o fizermos, pelo menos não com a confiança de que podemos afirmar que não pode haver tal coisa como culpa compelida e punível; pois a justiça eterna do Ser Divino torna esta última absolutamente impossível. De fato, inclinamo-nos a pensar que existem coisas que, apesar do fato de que tal linguagem está aberta a sérias objeções, contudo, por falta de um vocabulário moral mais copioso, estaremos sob a necessidade de chamar exemplos de “santidade compelida”.

O caráter de Adão em sua criação é às vezes definido como “santo”, mas seria mais adequado designar seu estado primitivo como de inocência e pureza moral, em vez de santidade. Ele não foi tanto cria… …do santo quanto colocado aqui para desenvolver a santidade sob provação. Mas a santidade de Deus — não é ela eterna e, portanto, uma “santidade compelida”? Aquelas crianças que morrem na infância sem terem passado por qualquer provação são salvas no céu, e elas possuem uma natureza moral. Não as chamaremos de “santas”? Talvez, então, visto que, por falta de um termo diferente, devamos designar estes como casos de santidade necessária, devêssemos adicionar um adjetivo qualificativo ao outro tipo de santidade, para distinguir as duas, e chamá-la de santidade probatória. Esta santidade probatória é, podemos afirmar com confiança, o tipo mais elevado de santidade do ser criado; e tornar isso possível e real foi, podemos dizer, o grande propósito de Deus ao criar o homem e colocá-lo sob a lei da provação.

Não precisamos dizer, então, que não pode existir tal coisa como “santidade compelida”. De fato, pode haver seres, pelo que sabemos, que foram criados por Deus e colocados imediatamente no céu sem nunca passarem por qualquer provação (embora todos os anjos, até onde sabemos, tenham passado por uma provação), e podemos estar sob a necessidade de chamá-los, por falta de um termo diferente e melhor, de “santos”; mas, se for assim, podemos pelo menos dizer que a santidade deles é de um tipo muito inferior àquela dos homens e anjos que tiveram que se submeter a um teste e desenvolver a santidade como resultado de uma provação severa e temível que continha em si a terrível possibilidade de culpa e pecado.

O Pecado é Possível Onde Quer Que a Santidade Seja Possível

A fim de tornar possível a santidade probatória, era absolutamente necessário tornar o pecado possível. Uma provação deve ter duas alternativas e dois desfechos possíveis, ou não seria uma provação real. Mas disso não se segue que o pecado deva ser real; segue-se apenas que ele deve ser possível. O Criador não fez do pecado uma necessidade, apenas uma possibilidade; e podemos dizer com confiança que Ele não o teria feito sequer uma possibilidade se fosse possível para Ele assegurar o tipo mais elevado de santidade do ser criado sem torná-lo possível.

Foi o homem, e não Deus, quem tornou o pecado real. Ele o tornou real pelo abuso de sua liberdade, que lhe foi dada para o desenvolvimento da santidade e para que, através da santidade, ele pudesse realizar a maior felicidade de criatura possível. É fácil ver que a santidade de seres que viveram em um mundo de provação, e serviram e obedeceram livremente a Deus diante de tentações severas e variadas, é o tipo mais elevado de santidade, e que glorificará o Criador infinitamente mais do que qualquer santidade criada e compelida possa glorificar. A santidade compelida pode glorificar a Deus apenas como uma casa glorifica seu construtor ou a estátua de mármore seu escultor, não como um filho glorifica seu pai, ou um aluno seu professor, ou um cidadão seu governante, ou um soldado seu líder.

Editora Sal Cultural - Coleção Grandes Temas da Teologia

By Editor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *