Resenha de Artigo* por Eduardo Vasconcellos Lambert


Tese central

Truesdale parte de uma convicção que, segundo ele, caracteriza a teologia wesleyana contemporânea: Deus é Amor Santo, e isso descreve a sua própria vida trinitária, não apenas a sua maneira de agir. Dizer “Amor Santo” é dizer “Deus”, e tudo o que existe fora dele existe como expressão do amor criador, sustentador e orientador do Deus trino. Falar de amor divino, acrescenta, é falar de graça.

A partir daí, o autor propõe um exercício: pensar essa afirmação “por inteiro” (no sentido de Kierkegaard), isto é, testar contra ela todas as outras coisas que os wesleyanos dizem sobre Deus e o mundo. O caso de prova escolhido é a doutrina da condenação eterna. A sua tese é que a ideia tradicional de um inferno de existência consciente, sem perspectiva de reconciliação, e a confissão de que Deus é Amor Santo parecem mutuamente excludentes. Ele apresenta o texto como uma provocação para a discussão, não como um conjunto de respostas fechadas.

  1. Deus como Amor Santo no pensamento wesleyano

Para mostrar que a ideia é central, Truesdale reúne vários intérpretes de Wesley e da tradição wesleyana:

  • Ray Dunning: a natureza essencial de Deus é o amor santo.
  • Randy Maddox: entre os atributos morais de Deus, que definem o seu caráter, o amor é o que “reina” sobre os demais. Wesley teria fundado a justiça (santidade) de Deus no seu amor, e definido esse amor como “santo”, isto é, um amor que respeita o valor e a responsabilidade de quem é amado. Justiça e amor nunca devem ser separados nem postos em oposição, e a justiça deve ser entendida mais como equidade e preservação do que como condenação.
  • Henry Knight: o amor é o elemento de Deus que governa todos os outros, e ele concorda com isso em nome próprio.
  • Steve McCormick: o amor é o predicado ontológico supremo, o fundamento imediato de tudo o que existe. Onde há existência, Deus está presente de modo gracioso, e o Espírito Santo é a energia pessoal desse amor.
  • Theodore Runyon: para Wesley, a natureza da graça é o amor.

O autor assinala uma voz dissonante em nota: J. Kenneth Grider, para quem a natureza básica de Deus é a santidade, e o amor é algo que Deus decide fazer, não aquilo que ele é. Esse contraste volta a aparecer mais adiante no argumento.

Se essas leituras forem corretas e normativas, conclui Truesdale, nada na teologia wesleyana escapa ao teste: as afirmações sobre Cristo e a cultura, as religiões do mundo, a ecologia e a relação entre Deus e as ciências devem ser avaliadas à luz de Deus como Amor Santo.

  1. A doutrina da condenação eterna

O autor reconhece que o tema não está na vanguarda da teologia, da eclesiologia e da pregação wesleyanas atuais, mas lembra que a doutrina permanece nos artigos de religião das denominações ligadas à sociedade e aparece nas teologias sistemáticas recentes.

  • John Wesley acreditava firmemente na perdição eterna. No sermão “Of Hell”, chama a doutrina de verdade terrível e de grande importância, que deve ser considerada inclusive pelos mais santos. Para ele, o tormento dos condenados não terá fim.
  • Dunning descreve o inferno como um prospecto temível e prefere a expressão “separação de Deus”, recomendando evitar especulações apoiadas em fontes não canônicas.
  • Grider apresenta uma versão mais tradicional: os finalmente impenitentes sofrerão punição eterna, com graus proporcionais à gravidade dos pecados, e ninguém ensina isso mais claramente do que Jesus.
  • Documentos denominacionais: o autor cita os artigos da Igreja Metodista Unida, da Igreja Wesleyana, da Igreja Metodista Livre e da Igreja do Nazareno, todos afirmando uma condenação final, eterna ou sem fim, para os que rejeitam a salvação.

Dessas fontes ele extrai a seguinte compreensão: no inferno há existência consciente que já não é objeto de reconciliação. É essa posição que ele considera insustentável para a teologia wesleyana, porque contradiz a sua doutrina de Deus.

  1. Cinco afirmações que decorrem de “Deus é Amor Santo”

Primeira. O Amor Santo origina, sustenta e dirige toda a criação. Isso não ocorre por emanação, mas por ação divina ativa. Existir é ser “presenteado com o ser”, o que implica contingência radical e momento a momento. Sem o Amor Santo, haveria absoluto não-ser. O autor apoia a ideia em Colossenses 1:17 e em Sabedoria de Salomão 11:25.

Segunda. Para os wesleyanos, existir é ser alcançado pela graça, não apenas receber a existência, mas ser objeto de visitação, reconciliação e comunhão. Criação e redenção não são atividades divinas separadas (o autor cita Runyon e Rob Staples), e toda graça é “cristã” em sua origem, pois o Filho medeia entre Deus e a criação como Criador, Sustentador e Redentor, independentemente de tempo e espaço. Por isso nenhuma pessoa existe como algo soteriologicamente neutro. Essa é a graça preveniente, cujo alvo é a reconciliação, a comunhão e o reflexo da imagem divina.

Terceira. Não pode haver distinção rígida entre ontologia e soteriologia: ser é ser dado, ser dado é ser visitado por Deus, e ser visitado é ser chamado à restauração da saúde por meio da comunhão com ele. Fora disso só restaria o não-ser absoluto.

Quarta. Nenhum âmbito da existência está fora do alcance dessas premissas. A menos que se admita que a natureza de Deus mude conforme o lugar, o tempo ou a situação (caso em que o Amor Santo seria secundário), tudo o que existe, onde quer que exista, é objeto do Amor Santo ativo enquanto Deus for Deus.

Quinta. Nenhuma forma de dualismo metafísico é admissível, e isso deve ser observado com rigor.

  1. As perguntas que daí surgem

Truesdale lembra que a doutrina da punição eterna pressupõe que os habitantes do inferno existem como seres contingentes, recebendo o seu “ser” de Deus a cada momento (negar isso levaria ao dualismo), e que há continuidade de consciência entre a vida na terra e a existência no inferno (do contrário a doutrina perderia o sentido). Se as cinco premissas estão corretas, existir no inferno pressupõe a presença do Deus gracioso, isto é, do Amor Santo ativo, que sustenta e também chama à saúde todos os seres conscientes.

As perguntas decisivas são então:

  • Pode um wesleyano defender, sem abandonar a doutrina de Deus, algum âmbito da existência em que a reconciliação e a comunhão não sejam o alvo da presença divina?
  • Não seria contraditória, para um wesleyano, uma incorrigibilidade selada por Deus? O Amor Santo pode deixar de buscar a reconciliação sem deixar de ser ele mesmo?
  • O autor lembra ainda a suspeita de Nietzsche de que a ideia de punição eterna nasce, em parte, de um ressentimento mal disfarçado em certos cristãos.

Truesdale esclarece que dizer que Deus nunca deixa de buscar a reconciliação não obriga a afirmar que todos os seres, no céu ou no inferno, acabarão por aceitá-la. A liberdade finita que hoje permite recusar o amor de Deus continuaria existindo, e a rejeição permaneceria como uma “impossível possibilidade”. A vulnerabilidade do amor divino não será retirada, pois um amor oferecido e uma reciprocidade forçada são noções contraditórias (o autor cita Niebuhr e, de Runyon, a ideia de que a graça assiste a resposta humana sem anular a liberdade).

  1. Duas respostas que o autor considera inaceitáveis

Em sua exposição da terceira afirmação, Truesdale rejeita duas saídas para escapar da conclusão de que toda existência é objeto de reconciliação:

  • Graça só de sustento. Sustentar que algumas criaturas existem sem serem objeto de reconciliação, sustentadas por uma graça que visa apenas a manutenção da existência, ou que Deus escolhe partes da criação para a redenção e deixa outras sem ela. Isso, diz ele, não pode ser dito por quem fala como wesleyano de verdade.
  • O amor como escolha, não como natureza (Grider). Se a essência de Deus é a santidade e o amor é uma decisão, então Deus poderia deixar de amar sem violar a sua essência, e poderia sustentar eternamente os condenados sem amá-los, tornando-os objeto de criação e condenação, mas não de amor. Essa posição é o oposto da ênfase wesleyana no amor como natureza de Deus.
  1. Duas resoluções possíveis

O autor propõe duas saídas que considera aceitáveis para os wesleyanos. Ambas desafiam a doutrina tradicional da perdição entendida como ato deliberado e irrevogável de juízo divino, mas divergem sobre o destino final dos impenitentes.

Primeira opção: imortalidade condicional (aniquilacionismo). Só Deus concede imortalidade, e apenas os justos a recebem. Pelo abuso persistente da liberdade, os ímpios se aniquilam: o pecador, em autogoverno escolhido livremente, volta-se cada vez mais para dentro, torna-se um “feixe de ego” cada vez menor e termina em nada. Isso poderia ocorrer na morte ou depois, com Deus continuando a buscá-lo graciosamente “por incontáveis eras, se necessário”. Staples considera a opção aceitável para os wesleyanos e cita Joseph Beet e E. Stanley Jones como wesleyanos atraídos por ela. Segundo ele, a liberdade real dada por Deus exige a possibilidade de rejeitar Deus de modo final e irrevogável. Staples, apoiado em Stephen Travis, acrescenta quatro argumentos a favor: a Bíblia não ensina que a alma seja naturalmente imortal, as imagens bíblicas como o “fogo” indicam destruição, a expressão “castigo eterno” indica o resultado e não a duração do castigo, e uma punição sem fim implicaria um dualismo cosmológico eterno. Para Truesdale, a opção preserva Deus como Amor Santo: enquanto houver um ser consciente, Deus o corteja, e a aniquilação é a conclusão da rejeição persistente, não uma decisão de Deus. Também se harmoniza com a afirmação de Paulo de que apenas os santos vestirão a imortalidade (1 Coríntios 15).

Segunda opção: sustentação perpétua com busca de reconciliação. Rejeita a aniquilação e sustenta que Deus, como Criador, continua a manter a vida consciente e pessoal, e continua perseguindo os fins do Amor Santo. O juízo divino contra a escolha da morte espiritual permaneceria onde houvesse “incredulidade”, e a alienação continuaria indefinidamente, a menos que ocorresse, por resposta capacitada, arrependimento e reconciliação. O Criador sustentaria a vida consciente para sempre, não para punir, mas para promover a reconciliação.

Comparação. Segundo o autor, a segunda opção teria a vantagem de evitar uma falha possível da primeira: que o não-ser triunfe por fim sobre o Criador e tenha a última palavra, pondo fim à possibilidade de reconciliação e deixando o niilismo suplantar o sentido e a saúde. Embora Deus não “desista” ativamente na primeira opção, as suas possibilidades ficariam para sempre restringidas. Por outro lado, pode-se objetar à segunda que ela permitiria ao pecado triunfar sobre Deus. A segunda opção também pergunta à primeira: se só Deus pode conceder a existência, não seria só ele quem pode retirá-la? Colocar a retirada do ser sob controle da criatura afirmaria algo inaceitável sobre Deus. Em ambas se pode dizer que “o amor nunca desiste”, mas o sentido da frase muda.

Truesdale conclui que os wesleyanos poderiam adotar qualquer das duas, e admite que talvez existam outras opções, possivelmente melhores, ainda por explorar.

  1. Conclusão do artigo

O texto termina com perguntas abertas, não com uma tese fechada. O autor sugere que é hora de os teólogos wesleyanos darem atenção cuidadosa e continuada ao conjunto de possibilidades soteriológicas que a sua teologia sustenta, e pergunta:

  • Deve ser ampliado o que se entende por “renovação da criação”?
  • É preciso reexaminar o sentido do “otimismo da graça”?
  • A quem se aplicaria a orientação de Karl Barth, semelhante à de Wesley aos metodistas, de pensar cada ser humano, mesmo o mais vil ou miserável, como alguém de quem Jesus Cristo é irmão e Deus é Pai?
  • Que limites poderiam ser justificados para a ideia de Runyon de que, numa teologia consistentemente wesleyana, o Espírito de Deus age “em toda parte no mundo”?
  • Como perseguir essas questões até o fim afetaria a oração, a pregação, a expectativa sobre a extensão do Reino de Deus e a leitura das Escrituras?
  1. Síntese em uma frase

Se Deus é Amor Santo em sua própria essência e tudo o que existe é objeto desse amor, a doutrina tradicional de um inferno sem reconciliação entra em tensão com a doutrina wesleyana de Deus, e Truesdale propõe examinar, como saídas, a imortalidade condicional ou uma sustentação eterna em que Deus nunca deixa de buscar a reconciliação.


 

* Nota: Esta é uma resenha em português do texto que foi apresentado originalmente como discurso presidencial à Wesleyan Theological Society, em março de 2000, na Azusa Pacific University. Para citações ou argumentos precisos, consulte o original:

Holy Love vs. Eternal Hell: The Wesleyan Options
Al Truesdale. Wesleyan Theological Journal, vol. 36, n. 1, 2001, p. 103-112.

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Editora Sal Cultural - Coleção Grandes Temas da Teologia

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