Por Eduardo Vasconcellos Lambert


A Teologia Wesleyana costuma ser apresentada como uma análise de fundo bíblico, construída a partir de um método que recebeu indevidamente a alcunha de quadrilátero, por considerar quatro elementos: Escritura, tradição, razão e experiência. Ele pode ser útil como ferramenta didática, mas muitas interpretações atuais tratam os quatro elementos como fontes equivalentes. E isso não corresponde ao pensamento original de Wesley. Aliás, a idéia do Quadrilátero também não foi dele, mas de Albert Outler, que se arrependeu alguns anos depois. Wesley entendia a Escritura como autoridade primeira. A experiência confirmava a verdade bíblica. Razão e tradição tinham função de apoio, não de equilíbrio. A Experiência é uma verdadeira inovação wesleyana. Veja o quadro abaixo:

Com freqüência, porém, o uso do quadrilátero evolui para conclusões que não dialogam com as fontes históricas. Uma das mais recorrentes é a tentativa de encaixar Wesley em propostas atuais de teologia ecumênica ou identitária, moldadas por categorias modernas de diálogo inter-religioso, leituras comunitárias e ênfases sociopolíticas ideológicas. Esses temas podem ter valor e lugar em si mesmos, mas não podem ser atribuídos ao pregador metodista sem distorção.

Aos que se aproximam de Wesley para estudo ou por confissão de fé de sua igreja, aqui começa a necessidade de discernimento. A linguagem wesleyana pode ser usada para apoiar ideias diversas, mas isso não significa que representem o pensamento do evangelista inglês. Entender onde termina Wesley e onde começam as releituras contemporâneas é essencial para quem deseja trabalhar com integridade histórica.

Wesley valorizava a unidade cristã, mas essa unidade nascia da caridade e da santidade, do amor santo. Não significava diluir diferenças teológicas ou harmonizar tradições por meio de acordos institucionais. Sermões que hoje aparecem como base para leituras ecumênicas amplas, como “O Espírito Católico” e a “Carta a um Católico Romano”, revelam outra intenção quando lidos no contexto. Wesley convidava os cristãos ao amor mútuo sem abrir mão de convicções bíblicas. Na mesma carta em que buscava paz, também criticava com clareza doutrinas católicas romanas que considerava invenções humanas, como purgatório, indulgências e veneração de relíquias. Era “católico” na caridade e firme na doutrina.

Outra leitura comum afirma que Wesley ensinaria uma “experiência coletiva da graça” ou algo semelhante. A entrada de diário de 24 de maio de 1738, em Aldersgate, é muitas vezes citada para respaldar essa ideia. O próprio texto do diário, porém, diz outra coisa. Wesley descreve algo íntimo e individual: “Senti meu coração estranhamente aquecido.” Em seguida explica que confiava em Cristo para salvação e que tinha certeza pessoal do perdão.

Essas duas afirmações são fundamentais. Não há nada ali sobre experiência compartilhada, sensação comunitária, unidade mística entre tradições ou a própria experiência como critério universal.  Ao contrário, Wesley identifica uma experiência subjetiva validando uma promessa objetiva da Escritura.

Além disso, Wesley rejeita explicitamente a idéia de experiência coletiva como base teológica. Nos seus sermões e cartas, Wesley afirma, entre outros pontos que a conversão é pessoal, o testemunho do Espírito é interior, a garantia de perdão é individual, a fé salvadora diz respeito ao relacionamento individual com Cristo e que a Igreja é uma comunidade de pessoas regeneradas individualmente. Desse modo, A comunidade expressa a fé, mas não a produz.  A experiência não é uma fonte, e muito menos um critério ecumênico: é fruto da fé nas Escrituras.

Wesley sempre afirmou que a experiência jamais precede a verdade bíblica, mas a confirma.

Da mesma forma, sua preocupação social, ultimamente interpretada de modo identitário por correntes teológicas recentes, era expressão direta da santidade e do amor cristão e não de categorias ideológicas. Wesley visitava presos, defendia pobres, lutava contra a escravidão e pregava o uso santo dos bens materiais (aliás, sobre este tema, o artigo 24 das Sociedade é uma orientação específica contra novas ideologias: os bens são propriedade particular, “não são comuns” e cada um poderá dispor livremente deles) — Wesley agia dessa maneira, não porque compreendesse a sociedade em termos de identidades, classes ou conflitos estruturais modernos, mas porque cria que a graça que justifica também transforma, capacitando o cristão para as obras de misericórdia. Seu pensamento social nasce da ética do amor, não da militância; da santidade bíblica, não da análise sociológica; da imagem de Deus compartilhada, não da política de grupos.

Ignorar essas distinções leva facilmente à construção de um “Wesley moderno”, maleável às demandas culturais do presente, mas desconectado das convicções robustas do avivamento metodista.

Wesley não via a sociedade em termos de classes, identidades ou lutas estruturais, mas em termos da imagem de Deus em cada pessoa e da responsabilidade cristã de amar e servir. Seu pensamento social não pode ser lido pelas lentes do século XXI sem grave distorção.

Wesley foi um notável polemista — e isto não deve ser visto como defeito, mas como virtude. Ele debateu abertamente com calvinistas, católicos, morávios, iluministas e místicos porque sua lealdade à Escritura era inegociável. Amava intensamente, mas amava com verdade; dialogava amplamente, mas dialogava com firmeza; acolhia com generosidade, mas jamais à custa da doutrina.

Wesley não temia confrontar erros doutrinários onde quer que os encontrasse. Entre os grupos com os quais debateu intensamente, destacam-se:

  • Calvinistas, como George Whitefield, sobre predestinação dupla, depravação absoluta e ausência de livre-arbítrio.
  • Clérigos anglicanos, cuja fé meramente formal ele denuncia por falta de experiência do novo nascimento.
  • Católicos romanos, rejeitando purgatório, indulgências, culto a imagens, relíquias e invocação dos santos.
  • Morávios, criticando o quietismo, a introspecção paralisante e o abandono das obras de santidade.
  • Filósofos iluministas, como David Hume (especialmente quanto à escravidão), e denunciando o racionalismo e o materialismo moral de Voltaire.
  • Místicos, como Thomas à Kempis (por aspectos de predestinação), Jeremy Taylor (pela negação da certeza do perdão) e William Law (por confundir fé e obras).

Wesley não era irênico por relativização doutrinária, mas por caridade cristã, por seguir uma visão do amor fraternal. Era também polêmico — porque amava a verdade bíblica.

Por tudo isso, vale sempre voltar às fontes. O Wesley dos sermões, cartas, diários e tratados não autoriza conclusões ecumênicas relativistas nem teologias sociais identitárias, pois seu ministério repousa sobre um tripé inabalável: a primazia da Escritura, a centralidade da conversão pessoal confirmada pelo testemunho do Espírito (a experiência individual) e o compromisso inegociável com a santidade de vida que desemboca na busca pela Inteira Santificação.

Que essa visão ajude o leitor a reconhecer o que é fiel ao próprio Wesley e o que nasce de lentes contemporâneas aplicadas a ele. Ler com proveito, julgar com clareza e seguir o caminho antigo que ele ensinou continua sendo um desafio atual: a graça que salva, transforma e leva à santidade (perfeição) bíblica.

 

Editora Sal Cultural - Coleção Grandes Temas da Teologia

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