Eduardo V. Lambert


O avanço dos medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic e Wegovy, inaugurou uma nova fase no tratamento da obesidade. O que antes era restrito aos consultórios especializados rapidamente se tornou tema de conversas familiares, redes sociais, programas de televisão e até dos púlpitos das igrejas.

No Brasil, o debate costuma concentrar-se em cinco grandes questões: a compreensão da obesidade como doença; a distinção entre uso terapêutico e uso estético; os riscos da automedicação estimulada pelas redes sociais; o problema do acesso desigual a tratamentos de alto custo; e o futuro da própria abordagem médica da obesidade.

Entretanto, uma reportagem recente da Christianity Today, intitulada “Christians Debate Drugs vs. Discipline in the Age of Ozempic”, acrescentou uma dimensão pouco explorada entre nós: a reflexão espiritual sobre o uso desses medicamentos. O artigo mostra que muitos cristãos estão divididos entre enxergar essas medicações como instrumentos legítimos da graça comum de Deus ou como atalhos que substituem a disciplina e o domínio próprio.

A discussão merece atenção cuidadosa.

De um lado, há cristãos que testemunham melhora significativa na qualidade de vida após o uso desses medicamentos. Pessoas que conviveram durante anos com obesidade severa, limitações físicas, diabetes e sofrimento emocional relatam que encontraram nesses tratamentos uma oportunidade de recuperação da saúde e até mesmo de retomada de sua participação na comunidade cristã. Se Deus concede inteligência, pesquisa científica e recursos terapêuticos à humanidade, não seria coerente reconhecermos tais avanços como expressões da graça comum?

Curiosamente, essa não seria uma pergunta estranha à tradição wesleyana.

John Wesley demonstrou profundo interesse pelas questões relacionadas à saúde. Em 1747, publicou Primitive Physick, um manual que reunia orientações de higiene, prevenção e remédios simples, acessíveis sobretudo às populações pobres que não tinham condições de custear tratamentos médicos convencionais. A obra conheceu numerosas edições ao longo de sua vida e tornou-se um dos textos mais difundidos do metodismo nascente. Wesley acreditava que o cuidado com o corpo fazia parte da responsabilidade cristã e que o conhecimento disponível deveria servir ao bem comum.

Seu interesse não se limitou aos tratamentos tradicionais. Wesley também acompanhou experimentos envolvendo a utilização terapêutica da eletricidade, uma das grandes novidades científicas do século XVIII. Em seus escritos, registrou observações sobre a aplicação desses procedimentos em diferentes enfermidades, incluindo condições que hoje poderiam ser identificadas como transtornos neurológicos e mentais. Ainda que muitos desses métodos tenham sido posteriormente abandonados ou reformulados pela ciência, a disposição de Wesley em dialogar com as descobertas de seu tempo revela uma postura de abertura crítica, e não de rejeição automática às inovações médicas.

Por outro lado, existem preocupações legítimas. A cultura contemporânea frequentemente transforma o corpo em objeto de idolatria. A promessa do emagrecimento rápido pode reforçar padrões estéticos desumanizadores, estimular o consumo irresponsável e reduzir a complexidade do cuidado com a saúde a uma simples aplicação semanal. Além disso, o marketing agressivo e a influência das redes sociais tendem a minimizar riscos, efeitos adversos e limitações desses tratamentos.

Nesse ponto, a tradição wesleyana oferece contribuições importantes.

John Wesley compreendia a salvação de maneira integral. O evangelho alcança a alma, mas também se manifesta na forma como cuidamos do corpo, das emoções, dos relacionamentos e da vida comunitária. O cuidado com a saúde não era, para Wesley, demonstração de vaidade, mas expressão de mordomia cristã.

Ao mesmo tempo, Wesley enfatizava as disciplinas espirituais e a responsabilidade pessoal. O domínio próprio é fruto do Espírito Santo (Gl 5.22-23), e não deve ser confundido com mera força de vontade. Tampouco deve ser usado como instrumento de condenação contra aqueles que enfrentam doenças complexas.

É justamente aqui que precisamos evitar dois extremos.

O primeiro extremo é a rejeição automática da medicina. A própria trajetória de Wesley nos lembra que a fé cristã não precisa temer o avanço do conhecimento científico. O fundador do metodismo não hesitou em utilizar os recursos disponíveis em seu contexto histórico para aliviar o sofrimento humano, mesmo quando esses recursos eram objeto de controvérsia.

O segundo extremo é a medicalização indiscriminada da existência humana. Nem toda dificuldade deve ser resolvida por uma prescrição. O uso de medicamentos para perda de peso exige diagnóstico adequado, acompanhamento profissional, esclarecimento sobre riscos e benefícios, além da compreensão de que mudanças sustentáveis nos hábitos de vida continuam sendo componentes fundamentais do cuidado integral.

Talvez a pergunta mais importante não seja: “Cristãos podem usar Ozempic ou Wegovy?”

A pergunta mais adequada seja: “Em quais circunstâncias, com quais objetivos e sob quais critérios esse uso se torna compatível com uma ética cristã responsável?”

Num contexto em que influenciadores digitais oferecem opiniões rápidas e soluções milagrosas, a igreja é chamada a promover discernimento. Precisamos combater o preconceito contra pessoas que vivem com obesidade, rejeitar a idolatria da aparência física e incentivar o acesso à informação baseada em evidências.

O consumo descontrolado de qualquer recurso terapêutico é incompatível com a sabedoria cristã. Antes de aderir a tratamentos amplamente divulgados, é necessário compreender sua eficácia, seus limites, seus potenciais efeitos adversos e suas reais indicações clínicas.

O desafio para os cristãos do século XXI talvez não esteja em escolher entre disciplina ou medicamento. Em muitos casos, a resposta envolverá ambos. A disciplina sem compaixão produz legalismo. A medicação sem discernimento produz dependência cultural de soluções imediatas.

Talvez o próprio Wesley, com seu pragmatismo pastoral, perguntasse menos “esse tratamento é moderno demais?” e mais “isso promove saúde, reduz sofrimento e ajuda as pessoas a viverem plenamente para a glória de Deus?”. Essa é uma pergunta profundamente wesleyana para o século XXI.

A tradição wesleyana nos convida a trilhar um caminho mais excelente: o da santidade prática, que une responsabilidade pessoal, amor ao próximo, confiança na graça de Deus e compromisso com a verdade.

Em tempos de “canetas emagrecedoras”, a igreja precisa ser um espaço de acolhimento e esclarecimento, onde as pessoas sejam lembradas de que seu valor não está no número indicado pela balança, mas na dignidade que recebem como portadoras da imagem de Deus.

Editora Sal Cultural - Coleção Grandes Temas da Teologia

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