George Ridout


Segue-se uma citação do livro Perfect Love, do Rev. J. A. Wood:

Há muitos que, tendo em tempos desfrutado da bênção do amor perfeito, a perderam depois. Alguns a receberam por várias ocasiões, e, afinal, hoje se acham sem ela. As condições para conservar o amor perfeito, assim como as condições para conservar a justificação, são as mesmas pelas quais ele foi obtido: isto é, uma entrega completa da alma a Deus e uma fé simples em Cristo para a salvação presente. Essa entrega e essa fé — graduadas por uma luz e graça crescentes — devem persistir ao longo da vida, se se deseja conservar o amor perfeito.

Para reter essa graça, é preciso manter uma consagração contínua e inteira — um abandono total de si a Deus. “O altar santifica o dom”; somente quando tudo o que temos está sobre o altar da consagração podemos verdadeiramente permanecer em estado de santificação. Nenhuma parte do preço pode ser reclamado de volta, se almejamos conservar o testemunho do amor perfeito. Sua consagração deve permanecer completa, acompanhando a luz que cresce, por todos os dias da sua vida; e haverá necessidade de vigiar-se com afinco e resguardar este ponto. Guarde-se a si mesmo, e entregue tudo o que é seu a Deus.

A Fé e a Confissão do Amor Perfeito

Para conservar a salvação plena, é necessário continuar crendo. “O justo viverá pela fé.” “Somos guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação.”

Assim que o homem deixa de crer, perde a bênção; pois “pela fé permanecemos firmes”. O apóstolo Paulo, santificado, declarou: “A vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus.”

A fé é o vínculo vital entre a alma santificada e o seu Deus; por ela habitamos em Cristo, como o ramo permanece unido à videira. Para conservar o testemunho do Espírito e continuar na luz da pureza, é preciso confessá-lo. “Com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação.”

Muitas vezes, o temor dos homens impede essa santa confissão. Esse medo — que é um laço e uma sombra — deve ser vencido. Muitos têm resistido ao Espírito Santo quando deveriam ter confessado a bênção; e, por esse motivo, a perderam. Confessar a santificação não exalta o eu, pelo contrário: humilha a alma e glorifica a Deus. Há lugares e tempos em que o chamado para testemunhas claras é mais urgente, pois são poucos os que dão testemunho do amor perfeito, e grande a necessidade de vozes fiéis.

O Espírito de Renúncia e Vigilância

Além disso, a alma deve viver constantemente no espírito da renúncia de si mesma. É preciso negar-se de tudo quanto é pecaminoso — e até mesmo de tudo o que é duvidoso. “O que duvida é condenado se comer, porque não procede de fé; e tudo o que não é de fé é pecado.”

Milhares têm caído por causa de coisas “lícitas”. Nem tudo o que é permitido convém à alma santificada. É melhor renunciar a muitos prazeres que, embora não proibidos, enfraquecem o espírito. “Abstende-vos de toda aparência do mal.”

A alma purificada deve viver num espírito de constante vigilância. Vigia teu coração e guarda-o com toda diligência. Vigia teus lábios, sê zeloso quanto à tua língua, e defende-te de um espírito leviano e frívolo — pois muitos, por falta de sobriedade, caíram em trevas e ruína. “Conversas vãs”, “brincadeiras tolas”, e “toda palavra ociosa que os homens disserem, dela hão de dar conta no dia do juízo.”

A Presença de Deus e a Vida de Oração

A alma santificada deve viver constantemente sob o senso da presença de Deus.

Lembra-te sempre: “Tu, ó Deus, me vês.” Estás a todo momento diante do olhar que tudo perscruta — o olhar infinito de Aquele que vê até os pensamentos antes que nasçam.

Se soubesses que uma legião de anjos te observava a cada instante, quão cuidadoso serias em teu proceder! Pois bem: é o próprio Deus quem te vê. Conserva-te, pois, em reverência e serenidade, lembrando que estás em Sua presença imediata.

Vive uma vida de oração. Deves ser um homem de oração — não de palavras apressadas, mas de comunhão viva. Ora nas primeiras horas da manhã, e, se possível, demora-te algum tempo de joelhos diante de Deus. Esse contato secreto preparará teu coração para o dia. Ora muitas vezes; assim a oração se tornará deleite. Permanece com Deus até que Ele derreta teu coração — e, quando isso acontecer, não te levantes logo: fica ainda com Ele, suplica, espera; e Ele responderá, e tu serás transformado, renovado e fortalecido.

Para conservar a santidade do coração, é preciso trabalhar fielmente pela salvação das almas. O amor perfeito anseia pela redenção dos outros; se deixares de cooperar com Deus na salvação dos homens, teu amor esfriará em indiferença, e perderás o testemunho da inteira santificação. Quando teu coração se compadecer dos pecadores, vai a Deus em oração; depois, vai aos homens com simpatia e coragem.

Esse exercício do amor será como um santo óleo, derramado sobre tua alma. Procura também conduzir os santos a essa mesma graça. John Wesley escreveu:

“Um dos maiores meios de conservar o que Deus nos deu é trabalhar para que outros também entrem nessa graça, e professá-la abertamente diante de todos.”

O Testemunho e o Combate Espiritual

Para reter a santificação, é preciso opor-se ao pecado sob todas as formas, sem concessões. Como o Senhor, mostra-lhe nenhuma piedade — nem no templo, nem na praça, nem no íntimo do coração. “Não podeis servir a dois senhores.” A regra é clara e eterna: “Abstende-vos de toda aparência do mal.” O venerando pregador do Sul, Rev. J. O. McClurkan, escreveu:

“O conflito não termina quando entramos na vida santificada.O inimigo interior foi expulso, mas o pecado, em mil disfarces, ainda ronda ao redor.Conservar um coração puro requer vigilância extrema.‘Aquele que pensa estar em pé, veja que não caia.’”

Os israelitas travaram suas maiores batalhas depois de entrarem em Canaã; poucas conquistas fizeram no deserto. Assim também, a graça da inteira santificação é a que garante vitória contínua em meio às fortalezas, gigantes e reis da terra espiritual.

Terás oposição constante, provas agudas e tentações severas — mas o dom do Espírito Santo transforma cada crente em soldado de Cristo, e o Cristo interior faz dele mais que vencedor.

Tempestades podem rugir, homens podem zombar, e os demônios podem uivar; ainda assim, escondido no pavilhão da Presença Divina, terás perfeita paz. Tu fazes a entrega — e Ele faz a guarda. “E o próprio Deus de paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados irrepreensíveis até a vinda de nosso Senhor.” “Tu conservarás em perfeita paz aquele cujo coração está firme em Ti.”

A Tentação e o Caminho da Fé

Logo após o Senhor ser batizado com o Espírito Santo, foi conduzido ao deserto para ser tentado pelo diabo. Assim também, a tentação é de designação divina — portanto, não há pecado em ser tentado. O pecado está apenas em ceder.

Satanás pode atormentar-te com sugestões impuras, pensamentos estranhos, desejos e emoções que não são teus. Se não os aprovas, não são teus. Mas, frustrado em te fazer consentir, ele se tornará acusador, dizendo:

“Ah, que tipo de cristão és tu! Professar santificação e ter tais pensamentos? És um hipócrita!”

Dessa forma, muitos, ao entrarem na vida santa, recuam para o deserto da dúvida. Lembra-te: não podes impedir o diabo de deixar suas tentações à tua porta; mas não és obrigado a acolhê-las como hóspedes. Somente se as aceitas e aprovas, tornam-se tuas.

Os mais santos são, muitas vezes, os mais assaltados — o inimigo reserva suas armas mais pesadas para os que buscam a plenitude de Deus. À medida que avançamos na graça, enfrentamos tentações mais sutis, mais refinadas, mais disfarçadas de luz. O diabo pode vir em forma de um amigo querido, de um hábito antigo, ou de um desejo nobre. Pode vestir-se de prudência e parecer sensato — mas o Espírito Santo dá discernimento à alma cheia de Deus.

“Não ignoramos os seus ardis.”

Não te deixes governar pelos sentimentos. Cada alma tem seu próprio caminho diante de Deus. Alguns sentem mais alegria, outros mais paz silenciosa. Procura Cristo, e não as emoções que vêm Dele. Tendo-O, terás tudo. Madame Guyon dizia que o Senhor, às vezes, retirava dela todas as consolações sensíveis, para atraí-la a uma fé mais pura e profunda, unida somente ao Seu amor.

O Testemunho e a Palavra Viva

Entraste na vida santificada por meio da consagração e da fé. Ela se conserva pelos mesmos caminhos. Lembra-te: o dom deve permanecer no altar. É fácil, aos poucos, ceder — permitir que o mundo entre, e Cristo se retire, sem que o percebas. Examina-te, de tempos em tempos, e vê se tudo — teus bens, tua família, teus planos, teus afetos — permanece sobre o altar. E se descobrires que algo foi retirado, coloca-o de volta imediatamente.

Tudo o que o Senhor te mandar fazer, faze sem hesitação, sem demora e sem desculpas. A obediência pronta é a guarda da alma. Cultiva o hábito de confiar em Deus, independente de teus sentimentos. A dúvida cresce na medida em que exigimos provas além da Palavra.

Perguntaram certa vez a George Müller o segredo de sua fé inabalável. Ele respondeu: “Permanecer firme em meio às provações severas.” Abraão não vacilou diante das promessas; e haveria mais Abraões se houvesse mais corações dispostos a ser provados.

Enquanto olhares para as dificuldades, elas crescerão; mas quando teu olhar repousar em Jesus, a fé florescerá naturalmente. Pedro começou a afundar quando desviou os olhos do Mestre para as ondas. Em espírito manso e alegre, conta o que o Senhor fez por ti.

Não te envergonhes da palavra “santificação”, nem de nenhum termo que o Espírito use para designar essa obra. São palavras divinas — não podemos substituí-las. O mesmo amor perfeito é chamado na Escritura de “pureza de coração”, “vida abundante”, “dom do Espírito Santo” e “segunda obra da graça”. Mas é preferível o termo santificação, pois abrange toda a verdade que o movimento da santidade enfatiza.

O inimigo odeia essa palavra mais do que todas as outras; e como outrora o escândalo da cruz se concentrou nela, há bênção especial em testemunhar com clareza e firmeza sobre a santificação.

Vida Santa e Conselhos de Caminho

Não te deixes intimidar pela crítica dos homens.

Muitos perderam o brilho do Espírito ao silenciar o testemunho que deveriam dar.

Melhor ser fiel e conservar a luz do céu do que agradar ao mundo e perder a glória interior.

O sumo sacerdote, ao entrar no Santo dos Santos, trazia na orla de sua veste romãs e campainhas, alternadas — símbolo da vida frutífera e do testemunho sonoro.

Quando os sinos cessavam de soar, o povo sabia que o sacerdote havia morrido.

Assim também: onde o testemunho silencia, a vida se esvai. Apesar dos labores do dia, conserva sempre momentos de recolhimento com Deus.

Não te apresses à oração sem antes abrir a Palavra — pois a Escritura é o caminho mais certo para a prece viva. Deus fala contigo pela Escritura; tu falas com Ele pela oração; e o Espírito Santo dá testemunho no santuário da alma.

Toma tempo para o silêncio. Busca o sossego da presença divina. Faz calar todas as vozes interiores, até que só se ouça o murmúrio suave do Espírito. Muitos vivem apressados e, por isso, perdem o delicado acabamento da alma, a profundidade da paz, a doçura da fé e a ternura do amor. Homens como Knox, Wesley e João Batista deviam muito da força de seu ministério aos longos retiros de comunhão secreta com Deus.

Que tuas palavras sejam temperadas com sal — puras, amáveis e edificantes. Que tua linguagem seja como corrente morna no mar gelado do mundo: confortando, fortalecendo e abençoando.

Vive um dia de cada vez. “Não andeis ansiosos por coisa alguma.” Muitos dos montes que tememos jamais existiram senão em nossa imaginação. Deus não concede graça para sofrimentos emprestados.

Assiste a reuniões de santidade sempre que possível — são jardins onde a alma respira o ar do céu. E, se não houver tais encontros em tua cidade, começa-os em teu lar. Duas almas que oram juntas podem mover o coração de Deus.

Lê literatura santa e edificante. Não apenas folheie os livros — estude-os com oração. E se puderes comprar apenas um além da Bíblia, escolhe O Segredo do Cristão para uma Vida Feliz; pois lança luz sobre o caminho de quem deseja conservar a bênção recebida.

Caminhar na Luz 

Atenta às suaves advertências do Espírito.

Quando Ele te frear, obedece.

Quando disser “para”, não insistas.

Esses toques delicados são a vigilância amorosa de Deus sobre ti.

Evita os extremos: nem o luxo vaidoso, nem a negligência desleixada.

“Seja o adorno do coração o espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus.”

O dízimo é também um meio de graça.

A generosidade liberta o coração do apego às coisas da terra.

Dá fielmente ao Senhor o que lhe pertence, e faz ofertas voluntárias segundo teu amor.

Lembra-te do santo descanso.

O dia do Senhor é tempo de adoração e recolhimento, não de mundanidade.

Guarda-te das alianças que obscurecem a consciência.

Nenhum cristão pode manter um coração puro enquanto participa das obras que sustentam o mal.

O amor ao próximo proíbe qualquer ato que o prejudique — ainda que o mundo o chame de negócio.

Caminha na luz.

Coisas que ontem podias fazer sem culpa, hoje talvez te pesem à consciência — porque a luz aumenta.

Permanece sob o foco purificador do Espírito Santo e busca ver-te como Deus te vê.

O tempo é breve.

Logo estarás diante do Senhor.

Faze o bem enquanto é dia; trabalha por este mundo ferido e cego.

E que Deus conceda que assim seja.

Amém.


Tradução; Eduardo Vasconcellos

Fonte: https://www.sermonindex.net/sermons/jVGCXJCs5OXPgMzc

Editora Sal Cultural - Coleção Grandes Temas da Teologia

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